sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Tempo, presença e exemplo

Por Jorge Amaral*
Dentre vários seres que a mitologia grega criou, havia espaço até mesmo para bandidos. Um deles era Procusto. Um lendário ladrão que vivia próximo a Elísios, na Ática. Originalmente chamado de Damastes ou Polípemon, ele adquiriu o nome de “Procusto, o Estirador”, porque obrigava suas vítimas a deitarem-se num leito de ferro e cortava-lhes o pé, quando excediam o tamanho deste, ou esticava-os com cordas, quando não o atingiam. Após convidar os viajantes que percorriam os caminhos da antiga Grécia a passar a noite em sua casa, atraia-os com uma recepção calorosa até altas horas. Depois de vencidos pelo cansaço de tantas homenagens, ele os persuadia a pernoitar em seu quarto de hóspedes, onde estava o famoso "Leito de Procusto". Como era “perfeito” o mundo de Procusto, ele anunciava que tudo devia adequar-se às normas e modelos consagrados. Para ele, as pessoas deviam ficar “na medida de seu leito”. Deduz-se, com isto, que Procusto queria aprisionar as pessoas a uma determinada medida e que todos deveriam pensar e agir da mesma forma. Ele é o símbolo da submissão do espírito a um paradigma limitado.
Transportando essa metáfora para a realidade contemporânea, em um momento de irrefutável globalização e de rápidas transformações em todos os campos da sociedade humana, os velhos padrões da administração e ultrapassados modelos de gestão não mais respondem às novas exigências do nosso tempo, que devem ser atendidas por aqueles profissionais que assumiram ou pretendem assumir, de forma eficaz, a função gerencial em qualquer organização. Não mais será possível deitar-se no “Leito de Procusto” e esperar que alguém “lhes corte os pés” ou “lhes estique o corpo” para enquadrá-los nos moldes limitados de resposta gerencial, alicerçada em um modelo de administração tradicional e conservador que precisa ser urgentemente repensado, transcendido e superado.
Assim, os aspirantes a exercer funções de liderança no mundo corporativo, deverão possuir ou desenvolver, a capacidade de leitura de cenários e do meio ambiente; atuando como um mediador crítico e perspicaz diante das mudanças que ocorrem na sociedade, em uma velocidade constantemente acelerada pelo impulso do desenvolvimento cognitivo e tecnológico.
Aquele que lidera pessoas é convidado a ser um agente ativo no mundo que o cerca, percebendo os efeitos sociais da evolução da consciência, que transformam a maneira de ver, de julgar e de raciocinar dos indivíduos. Não menos importante para o dirigente é a necessidade de desenvolver competências e habilidades para a gestão de recursos, processos e pessoas, através de cargos fortalecidos com mais autonomia e poder para decisões. As "caixinhas" do organograma da administração tradicional, finalmente, estão desaparecendo; na medida em que a verticalização hierárquica cede lugar para o crescimento horizontal e a multifuncionalidade, onde o exercício da liderança passa a caracterizar-se pela capacidade de ser, agir e pensar, “projetando-se no lugar do outro”, como se de fato o fosse. É a busca da empatia e do rapport, decorrente de habilidades interativas e da competência interpessoal, obtida através da identificação holística onde o ser humano racional, emocional e relacional é compreendido em sua totalidade.
Os indivíduos, independentemente de seu nível socioeconômico e escolarização, apresenta questões em torno dos mesmos temas: carência afetiva, disputas de poder, baixa auto-estima, vazio existencial (...) e á medida em que trabalha sobre estas questões, ela deixam de ocupar um lugar de angústia, para se transformar em energia motivacional, que impulsiona o ser humano a realizar-se pessoal e profissionalmente.
Desafios contínuos. Esta é a realidade com a qual todos nós temos que lidar. No exato momento em que o homem se depara com suas fraquezas e contradições, surge a possibilidade de escolher um caminho, que o levará à paralisação ou a uma trajetória de crescimento, tornando-o uma pessoa integral, capaz de quebrar paradigmas, ousar, romper condicionamentos limitantes, libertar-se de velhas amarras como falsas crenças, fazer o resgate de sua auto-estima, da sua dignidade, equilibrar razão e emoção, cultivar a vitalidade do seu próprio corpo, disciplinar-se em hábitos saudáveis.
Paulo Freire menciona que uma das qualidades mais importantes do homem novo e da mulher nova é a certeza que têm de que não podem parar de caminhar e a certeza de que, cedo o novo fica velho se não se renovar.
Contam os historiadores da Filosofia que na porta principal do Templo de Apolo, em Delphos, estava escrito: “conhece a ti mesmo”. Este foi, e continua sendo, o ponto de partida todas as vezes que buscamos nos confrontarmos conosco mesmos à procura da nossa identidade.
Milton Nascimento imortalizou esta busca nos versos de sua canção: “Eu, caçador de mim”.
Onde, porém, devemos começar essa “caça” de nossa identidade? Jean Paul Sartre, o mais famoso filósofo francês do pós-guerra, cunhou uma sentença a respeito desta questão: “O homem é aquilo que ele faz”.
Uma das bases do paradigma do desenvolvimento humano pode ser resumida assim: “Aquilo que uma pessoa se torna, ao longo da vida, depende fundamentalmente de duas coisas: das oportunidades que teve e das escolhas que fez”. Sabemos que algumas escolhas são determinantes em nossa trajetória pessoal.
Fazer escolhas, tomar decisões, definir o rumo de nossa própria existência, é o que faz o homem, no dizer de Erich Fromm, “o parteiro de si mesmo”, isto é, as nossas decisões na vida e as ações delas decorrentes nos fazem sermos o que somos.
É o mesmo Sartre, no entanto, que nos inquieta, quando afirma: “o importante não é o que fizeram de nós, mas o que nós próprios faremos com aquilo que fizeram de nós”.
Quando a gente olha o nosso passado, o nosso presente e as nossas opções futuras por esta ótica, as coisas assumem outra forma e a vida parece nos dizer: “O melhor lugar do mundo é aqui, e agora” (Gilberto Gil).
Para exercer uma liderança participativa e eficaz é preciso investir TEMPO, PRESENÇA e EXEMPLO; mantendo o foco prioritário nas PESSOAS e EQUIPES; mobilizando-as em torno de objetivos comuns e assegurando os meios necessários e o bom clima organizacional para atingir os resultados esperados.

*Consultor Organizacional, Especialista em Gestão Estratégica de Recursos Humanos e Gestão Educacional, Psicodramatista, Master Practitioner em Neurolingüística, Professor Universitário, Coordenador de Processos Grupais e Facilitador de Programas de Sensibilização para a Mudança, Fortalecimento de Equipes e Desenvolvimento de Lideranças.

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