Neste meu último aniversário fui presenteado com um livro, por um grande amigo: Guia Politicamente Incorreto da América Latina. Inicialmente fiquei vacilante com este título, pois me remeteu aos tempos de faculdade. Boemia e revolução no Clube Comercial, eleição no DCE (Diretório Central dos Estudantes) , reunião no DA (Diretório Acadêmico – órgão representativo dos estudantes dentro das faculdades) , almoço no RU (restaurante universitário), onde o companheiro Sola, hoje secretário de Estado com seus constantes informes sobre o Solidariedade na Polônia, os discursos inflamados pela libertação e a unificação da América Latina, enfim, sonhos de liberdade onde o elo de conexão era Cuba de Fidel e Che. Nossas referências. Eles eram tudo. Será? O livro narra de forma clara que a salsa de Fidel não se bailava bem assim. Che exterminou em nome do “caminho correto” muita gente, inclusive companheiros de luta, por simples desconfiança. Che era um paranoico. Talvez nos dias de hoje ele fizesse alianças com o narcotráfico em prol de recursos à revolução. Isto não lembra nada nos tempos atuais?
Claro, que precisamos entender a ideologia dos autores do livro. Mas, sem dúvida deve haver alguma verdade. O livro mostra um Che preconceituoso e sinistro. Um homem cruel em nome da revolução. Hoje ele seria inimigo número um do GGB. Perseguiu e matou vários homossexuais. Luiz Mott deve se tremer todo ao ouvir este nome.
Lembro-me de uma passagem na Faculdade de Arquitetura, em Salvador, quando ganhamos o DCE com uma chapa chamada LUZ, que os adeptos do marxismo stalinista juravam nos mandar para o paredão , jargão que significava enfrentamento. Che mandou muitos. Quase partimos para porrada , mas os ânimos se acalmaram e resolvemos negociar de forma pacifica.
Além dos homossexuais eram perseguidos os católicos, Testemunhas de Jeová, alcoólatras, sacerdotes do candomblé, e mais tarde, portadores de HIV e qualquer outro que não se encaixasse no conceito de “homem novo”, crédulos a revolução na boa e velha ilha.
É claro que podemos questionar todas as informações, inclusive todo o conteúdo do livro taxando-as de boatos, mentiras e intrigas do capitalismo americano (eterna mania de perseguição que temos dos americanos. Talvez por isso sejamos latinos, e eles americanos simplesmente!) na figura dos autores do livro. Mas, há quem considere invenção que durante os anos de chumbo da ditadura militar no Brasil e na Argentina, milhares de civis foram mortos por questionarem o regime vigente.
Entendo que tomar o poder pela força hoje seria a maior cilada, pois pouco se aventurariam, até o camarada dos camaradas. Che ficaria nu em praça pública dando milho aos pombos. A rapaziada hoje lutaria em games revolucionários, mas jamais subiria Sierra Maestra ou Araguaia.
Assim, cabe refletirmos positivamente, após a leitura do livro que tudo é possível quando temos ideais. O ideal de Che era ter uma América livre. Hoje temos a liberdade, no bom e velho capitalismo selvagem, cheio de contradições, mas somos mais livres do que nunca. Logo, é melhor o cara ter do que não ter. Imagine nossas vidas sem celulares, notebook, redes, internet,Iphone’s, IPAD’s, enfim, seriamos todos camaradas, unidos sem fio, num wireless global vazio, numa sociedade de consumo perversa. Nossos ideais são outros. Assim caminha a humanidade.

